Sobretudo

Para ler e refletir

Por Roberto Maciel e Luiz Carlos de Carvalho

Arquivos para a Categoria ‘Saúde

Gripe beneficia inadimplentes

O G1 deu agorinha mesmo uma boa notícia para aquele pessoal que tem o péssimo hábito de ficar inadimplente. É que a nova gripe que preocupa autoridades sanitárias obrigou nada menos de 97 funcionários da Serasa a ficar em casa e por um período de sete dias.

Segundo o G1, “a decisão ocorreu porque um funcionário da empresa voltou de férias no Chile infectado pelo vírus e contaminou outros quatro colegas do mesmo departamento”. Com medo de infectar os demais, a Serasa resolveu colocar todo mundo de quarentena.

Como toda notícia tem dois lados (não sei se um feito por jornalista e outro por não-jornalista), quem está querendo tirar o nome no index dos endividados vai demorar a ter crédito na praça novamente. Ou seja: também vão ficar de quarentena.

Saiu no Blog Acerto de Contas, em post de Pierre Lucena:

“Desde o surgimento do novo terror de 2009, a ‘gripe suína’, 16 pessoas morreram. Foram 15 no México e 1 nos Estados Unidos. Neste mesmo período foram assassinadas pelo menos 200 pessoas em Pernambuco. E ninguém fala absolutamente nada. Desde quinta-feira, foram mortas 18 pessoas, segundo o PE Body Count“.

Clicando nos links acima você lerá o texto na íntegra.

E, sem querer cair na tentação de acreditar em teoria da conspiração – digo aqui, até pouquinho encabulado com o tamanho da besteira, que uma colega minha perguntou a outro se essa história de gripe suína não foi inventada para tirar a lamaceira da farra das passagens do noticiário -, observo que quem tem ganho uma grana braba com a gripe é o pessoal que fabrica e vende aquelas mascarazinhas de tecido. É bem capaz. Ou então é coisa do Lobo Mau.

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Pelo sim, pelo não, vou já comprar um estoque.

Na hora errada

Recebi por e-mail uma carta aberta de um certo Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite. É endereçada aos ministros do Supremo Tribunal Federal e o conteúdo é seríssimo. Leia. Volto depois:

“Acontecem nos próximos dias seis audiências públicas para discutir a Judicialização da Saúde. Um tema de fundamental importância por ser a saúde um direito do cidadão, garantido em Cláusula Pétrea da Constituição Federal.

É de conhecimento que o CONASS, Conselho Nacional de Secretários da Saúde, realizou no STF ‘lobby’ tentando convencer Vossas Excelências sobre a importância de ‘rasgar’ a Constituição Federal proibindo que o cidadão tenha acesso à Justiça quando necessitar de um medicamento. Medicamento este autorizado na sua comercialização no Brasil pela ANVISA, mas não constante da chamada Lista do SUS, tornando todos aqueles que não possuem recursos para comprar o medicamento em qualquer farmácia, em cidadãos de segunda classe, impedindo o acesso ao medicamento que poderá salvar sua vida.

Se o STF acatar os argumentos do CONASS estar repetindo o mesmo erro acontecido na África do Sul pelo ex-presidente Thabo Mbeki, o qual vale a pena conhecer para que isso não aconteça no Brasil.

Segundo uma pesquisa da Universidade de Harvard estima que o ex-presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, foi responsável pela morte prematura de 365.000 Sul-Africanos. Durante seu mandato ignorou o alerta de especialistas, sociedades médicas e organizações da sociedade civil, acreditando somente nas informaões de um pequeno grupo de assessores e gestores públicos que afirmava não ser necessário diagnosticar e tratar os infectados pela AIDS.

Thabo Mbeki manteve essa opinião contra o consenso científico sobre a necessidade de ações para combater a epidemia. Apesar das denúncias, inclusive realizadas publicamente por Nelson Mandela, o primeiro presidente negro da África do Sul, os responsáveis pelo ministério da saúde perdiam seu tempo desdenhando e tentando desprestigiar todos aqueles que denunciavam o genocídio que estava sendo cometido ao ignorar a epidemia de AIDS que assolava o país.

A pesquisa da Universidade de Harvard denuncia que, se Thabo Mbeki tivesse proporcionado testes de detecão, realizado campanhas informativas e fornecido medicamentos aos pacientes com AIDS e a mulheres infectadas com risco de contaminar os filhos, a maioria das 365.000 mortes prematuras teriam sido evitadas.

Podemos considerar que o ex-presidente Thabo Mbeki é culpado pelas mortes já que pelas denúncias devia estar consciente de que recebia informações erradas? Em princípio todo gestor da saúde pública não tem a intenção de matar ninguém, entretanto as boas intenções não bastam para justificar a gestão, quando o que está em jogo e a vida de milhões de indivíduos. Thabo Mbeki não é culpado por ter adotado no início da sua gestão uma visão sustentada por um pequeno grupo, mas culpado pela obstinação em manter o erro ignorando todos aqueles que o alertavam sobre a gravidade da situação.

Quando médicos e organizações não governamentais denunciavam o erro que estava sendo cometido, as autoridades os acusavam de estar defendendo os fabricantes de medicamentos, uma situação que se repete em outras doenças em muitos países, inclusive no Brasil conforme o CONASS tenta induzir Vossas Excelências, criando um escudo para justificar a inanição de ações de saúde pública.

O ensinamento do triste acontecimento com a AIDS na África do Sul é um indicador do custo social que significa não enfrentar responsavelmente uma epidemia ou doença, quando se conhece exatamente o seu tamanho e gravidade.

Os responsáveis pela saúde pública brasileira, em especial o CONASS, devem saber que proibindo o acesso aos medicamentos estarão ocasionando a morte de milhões de pessoas prematuramente, talvez ocasionando o maior genocídio da história no Brasil.

Thabo Mbeki deve ser julgado e condenado pela sua política na AIDS. Os atuais gestores da saúde e o CONASS estão tentando convencer Vossas Excelências a serem coniventes com suas propostas nazistas, que limitam não somente o acesso a medicamentos, mas que proíbem o acesso a Justiça, utilizando os mesmos argumentos dos assessores do ex-presidente da África do Sul.

Vossas Excelências podem e devem evitar que no futuro sejam citados em tribunais internacionais por serem coniventes com o crime contra a humanidade que o CONASS está propondo. Peço para que Deus os ilumine na decisão final, julgando em beneficio dos mais carentes, maioria no Brasil. Façam respeitar os preceitos da Constituição Federal negando o pleito do CONASS, mas antes da decisão escutem seus familiares, seus filhos, o que a vossa consciência e seu coraão tem a dizer sobre o direito à vida de seus irmãos brasileiros.

Rio de Janeiro, 27 de abril de 2009

Carlos Varaldo

Presidente do Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite
Vice-diretor da World Hepatitis Alliance”

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Por que “hora errada”, como observa o título? Simples: os humores dos ministros do STF não estão nada agradáveis por estes dias. É a senhores como os do videozinho abaixo que a carta é destinada. Devem estar com os fígados em pandarecos, mas isso não é tendência para que fiquem sensíveis aos apelos da entidade que apoia os portadores de hepatite.

Eu diria que o Grupo Otimismo não tem lá muitos motivos para ostentar o nome. Ou, pior, que o nome é o único traço que otimismo que podem ter no momento.