24 Jun
Não tenho notícia de nenhuma atuação político-administrativa de destaque do vice-presidente José Alencar. Só sei que o homem é mineiro, é rico e que nos últimos dois anos trava uma guerra danada contra o câncer.
E mais recentemente, quando li uma reportagem na revista Época, constatei que ele também é um baita exemplo de otimismo e de amor à vida. É claro que o homem tem condições de ficar realizando check ups a cada 60 dias nos mais modernos centros de diagnóstico por imagem em busca de tumores, mas o seu otimismo não deixa de ser um belo exemplo a ser seguido. Por isso, acho que vale a pena reproduzir aqui alguns trechos da entrevista que ele concedeu à repórter Cristiane Segatto, principalmente porque, às vezes, a gente fica chateado com uma dor de hemorróidas, com o filho que não quer seguir os nossos conselhos ou com o pentelho que vive enchendo o nosso saco, e esquece de valorizar e de pensar em aspectos mais importantes e positivos da vida.
ÉPOCA – O senhor tem a expectativa de que o tumor não vai voltar?
Alencar – Sempre tive essa expectativa mas ele nunca me obedeceu. Ele voltou (risos). Mas continuo com essa esperança. Obedeço muito ao Dr. Paulo Hoff, que é o meu médico. Creio em Deus mais do que nele, mas sigo a orientação do médico.

ÉPOCA – Quando o senhor recebeu a notícia da volta do sarcoma, como reagiu? Ficou informado?
Alencar – Minha reação foi perguntar: o que fazemos agora? O Dr. Paulo foi o primeiro a dizer que uma nova operação não seria a mais indicada. Aí estudaram a radiofreqüência e mandaram fazer. Eu concordei. Eu nunca titubeei em atender a orientação médica. E nunca fiquei emocionado com qualquer notícia que me fosse dada depois dos exames. Nunca. Em nenhum momento.
ÉPOCA – Isso é raro…
Alencar – Encarei com absoluta objetividade. Não tenho medo de morrer. Deus é que mata. Deus é a vida. Ele é que sabe. Se Ele quiser me levar Ele não precisa de câncer para isso. O dia que Ele quiser me levar vai me levar mesmo. Por isso não tenho medo da morte. Um grande filósofo grego foi jurado de morte se fosse à tribuna do parlamento para revelar não sei o quê. Ele foi à tribuna. E começou o discurso dizendo: “O que é a morte?” Ninguém respondeu. Ficou parado. “Estou perguntando o que é a morte”. Ninguém respondeu. “Assim como vocês não sabem o que é a morte, se é para o bem, se é para o mal, eu também não sei. Por isso, não tenho medo da morte. Mas tenho medo de perder a dignidade, a minha honradez”. Com isso, ele fez o discurso e ninguém o matou.
ÉPOCA – O senhor soube que houve divergência entre os médicos durante a cirurgia de retirada do primeiro sarcoma, em julho de 2006?
Alencar – Pode ser que tenha havido alguma coisa, mas eu estava anestesiado. Se você passar por uma anestesia geral, vai me dar razão. Não fica sabendo de nada. Eles evitaram falar disso comigo, porque eu era o paciente.
ÉPOCA – O senhor aprova o procedimento adotado naquela cirurgia?
Alencar – Sim. Eu não podia de forma alguma fazer qualquer tipo de avaliação. Quem sou eu? Sou leigo. Como um médico propositadamente vai deixar um pedaço do tumor? Não acredito. Sinceramente, prefiro não acreditar que tenha havido isso.
ÉPOCA – Na última eleição, o senhor pensou em não concorrer por causa do tratamento do câncer?
Alencar – Quando os exames revelaram o tumor, liguei para o Lula. Disse que ele precisaria arranjar outro candidato. Mas ele não quis conversa. Fiz a cirurgia em julho de 2006. Saí do hospital e fui direto inaugurar o comitê do Aloizio Mercadante. Depois saí em campanha. A única coisa que não fiz foi ficar de pé em caminhão. Os médicos não deixavam por causa das cicatrizes. Ia sentado na boléia. Sentia cansaço, tive anemia. Mas nunca deixei de cumprir meus compromissos.
ÉPOCA – É verdade que o senhor nunca havia feito um checkup médico em toda a vida, até 1997? Foi assim que descobriu o primeiro câncer (no rim direito)?
Alencar – Foi isso mesmo. Toda a vida fui um cara sadio, não ligava para isso. Meu sobrinho, que é médico, me arrastou para uns exames. Assim descobrimos o primeiro tumor. Foi providência divina. Passar por todas essas provações é porque a gente tem muito pecado.
ÉPOCA – O senhor tem muitos pecados?
Alencar – Devo ter. Nós todos temos. Quem acha que não tem é presunçoso.
ÉPOCA – Quais são seus pecados confessáveis?
Alencar – São todos veniais (risos).
ÉPOCA – O que o senhor espera do futuro?
Alencar – Eu? Tenho 76 anos. Quando terminar meu mandato, terei 79. O que posso querer mais? O máximo que posso querer na vida é disputar umas três ou quatro eleições. Isso provavelmente eu faça.