6 Jun 2008 13:22
Morreu ontem um músico bom pra danar - Ronald da Silva. Ele está para a gaita como Luiz Gonzaga está para a sanfona.
Quando estava no jornal O Povo, fiz uma entrevista com ele. Foi quando ele veio aqui, liderando a Troupe da Gaita, tocar no Dragão Jazz 2001. Acima, um videozinho do You Tube, com Ronald (de boina branca) e seu grupo. E entrevista vai abaixo:
“Banalização cultural. É assim que o harmonicista Ronald Silva vê o cenário da música brasileira, em que o instrumental é confinado a um público restrito e o mercado consome e exige cada vez mais uma ‘autêntica parada de sucessos da mediocridade’.
Roberto Maciel
da RedaçãoO nome completo do engenheiro florestal é Ronald Pereira da Silva, mas o músico atende por Ronald da Gaita. Aos 61 anos, é considerado um dos mais completos hamonicistas do mundo. E não é à toa. Para ele, gaita extrapola ritmos populares, como MPB, jazz e blues, e se expande para peças clássicas. Composições de Antonio Vivaldi, como o ”Concerto Nº 6 em Lá Menor para Violino e Cordas”, transcrito pelo próprio Ronald para a gaita cromática, e de Radamés Gnatalli, como o ”Concerto Nº 1 para Harmônica e Orquestra”, integram seu repertório.
Coordenador da Troupe da Gaita, grupo que arrancou aplausos entusiasmados do público do III Dragão Jazz, realizado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura no final de julho, Ronald iniciou-se profissionalmente na música em 1956, ao conseguir o segundo lugar em um concurso de ”Melhor Instrumentista do Ano”, de uma rádio de Curitiba - cidade onde nasceu e onde mora. Hoje, dedica-se à consultoria técnica da Fábricas de Harmônicas Catarinense, que produz os modelos Hering, e à Troupe da Gaita. Nesta entrevista ao Vida & Arte, ele fala sobre música instrumental, mercado fonográfico e formação de novos músicos.
O POVO - A música instrumental no Brasil é, com raras e honrosas exceções, tratada a pontapés pela indústria fonográfica. No entanto, o público dá boas respostas a trabalhos como o da Troupe. As gravadoras estão matando de inanição uma galinha dos ovos de ouro?
Ronald Silva - Esse descaso não é exclusivo das gravadoras, mas um reflexo do comportamento da sociedade. Na verdade, a indústria fonográfica produz e leva ao público a música que é solicitada. Estamos vivenciando, já há muitos anos, um extenso período de banalização cultural. A música popular, uma das formas mais eloqüentes de expressão cultural, desceu às profundezas da insensibilidade, da falta de qualidade. As composições que prosperam, que são veiculadas pela televisão ou pelo rádio, correspondem a uma autêntica parada de sucessos da mediocridade. É o glamour do mau gosto e da mais rasteira qualidade, com raríssimas exceções. Assim, quando um grupo musical como a Troupe da Gaita se apresenta para um público como o de Fortaleza, as reações são extraordinárias. O aplauso e o carinho da platéia demonstram que uma parcela do público está insatisfeita e frustrada com a música veiculada pela mídia. Mas devemos considerar que se trata de uma parte restrita do público consumidor. A expressiva maioria, infelizmente, não integra a seleta platéia que lotou o III Dragão Jazz. É possível considerar que para as gravadoras pouco importa a existência de grupos bem estruturados musicalmente como a Troupe da Gaita, os Cariocas, Zimbo Trio e tantos outros que poderiam compor uma aquarela de música popular sensível e bem executada. Quando a Troupe nasceu, a ”galinha dos ovos de ouro” da música popular já estava em profunda agonia.OP - O que é mais difícil: ter fôlego para tocar gaita por 44 anos ou ter fôlego para brigar contra o marasmo da indústria fonográfica?
RS - Sem dúvida, é necessário ter muito fôlego comercial para resistir às imposições e restrições da indústria fonográfica. Existem razões de caráter qualitativo, decorrentes da baixa qualidade da atual música popular, e de ordem comercial originadas pelo custo de produção, direitos autorais, divulgação, distribuição e venda. A indústria fonográfica sofreu uma sensível alteração em sua estrutura a partir das gravações em fita cassete e CD, que podem ser reproduzidas de maneira irregular por qualquer pessoa. Atualmente, existem inúmeras organizações realizando este tipo de comércio ilegal. A maioria das gravadoras foi seriamente envolvida e atingida por um mercado paralelo, baseado na produção pirata, absolutamente alheio ao recolhimento de impostos, de direitos autorais e custo zero com relação à produção de estúdio. Enquanto as gravadoras têm que cumprir todas as exigências fiscais e bancar os custos de produção e divulgação de um disco, a indústria pirata apenas produz cópias baratas deste trabalho e concorre com o mercado com um preço sempre muito mais baixo para o consumidor, mas com um produto de péssima qualidade. Essa concorrência desleal afasta as gravadoras dos artistas de menor apelo comercial, exigindo um trabalho de marketing intenso, portanto, mais caro, e determina um retorno muito lento do investimento. A demora nas vendas estimula a curto prazo o aparecimento do disco pirata e outra vez recomeça o ciclo…OP - Apesar das dificuldades de mercado, a Troupe da Gaita já se mantém há sete anos. E sem ter gravado nenhum disco, com exceção de um demo em um show em Curitiba. Após esse tempo todo, há algum projeto de CD?
RS - São muitas as razões pelas quais a Troupe da Gaita ainda não gravou o seu primeiro CD. De algumas já falamos. Outras são de ordem artístico-musical. O grupo foi sendo estruturado aos poucos e à medida da sua evolução técnica começou a sentir a orientação do repertório, o estilo musical, performance de palco e as características adequadas aos arranjos musicais. Foi um processo lento, pois, embora o grupo tenha sua origem no início de 92, o trabalho foi conseqüência de reciclagens musicais no estudo da harmônica. A formação inicial era muito diferente da atual. Apenas dois dos atuais integrantes são remanescentes do grupo inicial. Praticamente foi a partir de meados de 97 que o grupo passou a ter interesse profissional. Ou seja, somente nestes três últimos anos nos preocupamos com os detalhes importantes para um disco. Mas, estamos empenhados em gravar o CD, principalmente porque consideramos importante o registro desta atual fase musical da Troupe e também pelo propósito de divulgar ao grande público a nossa orientação musical e a promoção da gaita no cenário musical.OP - A receptividade do público de Fortaleza à Troupe da Gaita no Dragão Jazz foi extremamente calorosa - parece que foi um caso de amor à primeira vista, já que era o primeiro contato do grupo com uma platéia nordestina. Isso estimula a Troupe a buscar novas platéias fora do Sul?
RS - A receptividade em Fortaleza foi agradavelmente surpreendente. A atenção e o carinho do público nos emocionou muito, a ponto de desequilibrar um pouco logo no início do espetáculo. Eu particularmente fiquei um tanto quanto perdido no palco… Não sabia exatamente que atitude assumir. Não sabia se dialogava com o público, se anunciava os próximos temas do repertório. Na verdade, não entendia muito bem o que estava ocorrendo. Parecia que a Troupe da Gaita estava sendo apresentada aqui pela quinta ou décima vez. A energia emanada da platéia, as reações das pessoas diante do nosso trabalho insinuava que por muitas vezes eu já havia pisado naquele palco. Foi muito gratificante.OP - Além da Troupe, você coordenou outra formação, a Orquestra Harmônicas de Curitiba, dá cursos, desenvolveu um método para gaitas cromáticas e é consultor da Harmônicas Catarinenses, que fabrica as gaitas Hering. De onde surgiu essa paixão por um ”instrumento exótico”, como a harmônica era considerada na década de 40?
RS - Fui um dos idealizadores e fundadores da Orquestra Harmônicas, que coordenei musicalmente desde seu início, em março de 1979, até dezembro de 1999 quando deixei o grupo. A paixão por um inusitado instrumento como a gaita é outro caso de amor a primeira vista. Começou por volta de 1954, quando eu tinha meus 14 anos e fui inoculado pelo ”vírus da gaita”. Coisa de jovem, nos intervalos das aulas, no pátio do Colégio Bom Jesus junto com outros amigos, alguns dos quais tocavam gaita, instrumento muito popular naquela época. Entretanto, para mim, a gaita não foi apenas passageira. Constitui-se em uma fonte vital. Eu vivia gaita, respirava gaita. Jamais consegui imaginar a possibilidade de não mais tocar harmônica. Esse estado ”patológico” foi se agravando e atingiu seu ponto mais elevado quando eu tive a oportunidade de ouvir o Edu da Gaita. Posteriormente, conheci meu grande amigo e incentivador Fred Williams. Então, passei a ser um ”doente crônico”. Durante estes 47 anos, dos quais 44 de atividade profissional, rastreei tudo a respeito de gaita. Harmonicistas como Larry Adler, Leo Diamond, Jerry Murad, Don Les, Johhny Puleo, Richard Haymann, Stan Harper, Charles Leighton, Eddie Manson, muitos deles originários da grande escola dos Rascal’s de Minevitch (Borrah Minevitch, gaitista russo que criou a harmônica cromática) foram meus ídolos e mestres. Além de Edu e Fred, outros harmonicistas brasileiros como Nelson Barbosa, Zezinho de Lima e meus grandes amigos Maurício Einhorn e Rildo Hora constituiram uma fonte onde eu busquei minha formação. Atualmente, além de coordenar a Troupe da Gaita, mantenho um estreito relacionamento com a Fábrica de Harmônicas Catarinense, desenvolvendo projetos para novas harmônicas e realizando uma supervisão sobre a produção das harmônicas cromáticas. Sendo uma entre as quatro fábricas de harmônicas do mundo, a única na América Latina, a Hering vem produzindo excelentes instrumentos. A Troupe da Gaita e eu utilizamos exclusivamente gaitas Hering, exceção apenas aos modelos não produzidas pela empresa.OP - Há uma nova geração de gaitistas surgindo no Brasil, como Jefferson Gonçalves, Benevides Chiréia Júnior, Márcio Maresia, Vasco Faé e outros. Essa ”molecada” está se comportando bem, professor?
RS - A nova geração é muito promissora e vem dar mais fôlego para a gaita. No Brasil, nos últimos 30 anos, houve um sensível declínio com relação ao instrumento. É possível que estes jovens gaitistas venham a impulsionar a gaita como instrumento presente na música popular. A grande maioria dos expressivos gaitistas internacionais tiveram sua formação com a gaita diatônica e só a partir da criação e evolução da cromática (entre 1920 e 1930) direcionaram sua atenção para o novo instrumento, capaz de executar todos os gêneros musicais, inclusive a música de concerto.OP - Mas há um detalhe: a maioria dos novos gaitistas interessa-se só pela diatônica, a gaita mais usada no blues. A cromática, que tem potencial maior, é meio esquecida. Alguns até a acham ‘careta”…
RS - É provável que muitos dos atuais bluseiros se tornem exímios harmonicistas na cromática. Talento, qualidade e disposição eles têm. E muito”.
3 respostas for "Senhor realejo"
Ok, Roberto. Só um reparo: seu Luiz era um sanfoneiro apenas mediano. Otalento dele era bem outro…
Silvestre, há controvérsias…
Mas eu não disse que o Luiz Gonzaga era o melhor sanfoneiro do País, disse?
Deixe seu comentário