Diferentemente do Luiz Carlos, no post Remorso e medo de prisão, não me arrisquei ainda a dar palpite no caso da menina Isabella Nardoni. Tenho motivo: não vejo elemento que possa ser conclusivo para indicar o autor ou os autores do crime.

“Tá maluco!”, alguém aí deve estar me sentenciando. E até me chamando de alienado: “Não tá vendo que todo mundo já sabe que foram o pai e a mulher, aqueles monstros? Não tá ouvindo as conversas em todo canto? Não tá assistindo à TV todo dia? A Sônia Abraão, o Datena, o Geraldo, o Marcelo Resende, a Globo? Não sabe que o vereador Auri Nogueira disse na Câmara Municipal de Fortaleza que o pai e a mulher empurraram a Isabela do edifício? Não viu que pessoas até já tentaram invadir a casa dos pais do cara e linchar os dois assassinos?”

Estou, estou vendo e ouvindo isso tudo. E é “isso tudo” o que me preocupa. Estão tratando o caso, na maior sem-cerimônia, como um espetáculo. Um Big Brother com requintes de crueldade, no qual o corpo de uma menininha de cinco anos jaz como um troféu na luta pela audiência. O que está sendo dito está, queiramos ou não, moldando nossa apreciação.

Estou vendo também que a cobertura das TVs põe, por exemplo, uma câmara diante do prédio onde o casal está abrigado e, quando aparece a sombra de alguém, mandam ver um link ao vivo - geralmente o repórter não tem nada a dizer, mas cumpre sempre aquela promessa feita pelo apresentador: “Mais notícias nesta edição”.

Estou vendo também duas pessoas visivelmente abaladas, intimidadas, sob pressão intensa, com a moral em frangalhos e, por isso, aparentemente incapazes de coordenar idéias e mesmo de falar sem titubear - o que, para alguns, é sinal de que estão mentindo quando alegam inocência. Dá para convencer alguém de alguma coisa se você está com suas emoções destroçadas?

Estou vendo também uma polícia que faz coisas erradas uma atrás da outra - se eu fosse leviano diria que deliberadamente para esconder a incompetência, tamanha a necessidade de apresentar culpados à opinião pública. Já vimos isso várias vezes, como no episódio da Escola Base, em São Paulo, ou do “pai monstro que matou o filho a pancadas”, aqui em Fortaleza. Provou-se que houve açodamento dos policiais. E aí, como os acusados ficaram? Respondo: tiveram as vidas destruídas.

Como pôde a Polícia, por exemplo, não isolar a cena do crime? permitir que pessoas estranhas à investigação entrassem no apartamento e até retirassem objetos de lá, como fez o avô paterno e a tia da Isabela? dizer que não havia sangue no carro e depois informar que havia e que era da menina? manter a apuração numa delegacia distrital, quando deveria tê-la transferida para a especializada em homicídios, já que não havia conclusão sobre a autoria do delito? ter de fazer sete perícias no local do ocorrido, até alterando o ambiente, quando, numa situação de competência, duas já seriam demais?

Ora, basta ver Law & Order ou CSI New York para saber que isso não se faz. Eu vejo. Se a Polícia de São Paulo não vê, recomendo que veja. Lá é ficção, mas ensinam um monte de coisas.

Repare bem: Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá podem ser, sim, os culpados. Podem ter matado a Isabela e, por conseqüência, a nossa crença na bondade humana. Mas ainda não foram julgados, não foram submetidos ainda ao que dita a lei. E que fique claro, antes que apareça alguém me esculhambando: não estou nem de longe tentando inocentá-los.

No entanto, eles estão sendo condenados, mas julgados ainda não foram.