Seguinte: a historinha aí embaixo peguei no Blog do Maurição. E o Maurício diz lá que quem contou pra ele foi o Jarbas Oliveira.

Quer dizer que se alguém tiver de ir para o inferno por conta de espalhá-la, tem dois na minha frente.

“Embora a Semana Santa não seja o mais apropriado para contar piadas, vou arriscar. Até porque esta historinha tem tudo a ver com a data. Quem relatou foi o fotógrafo Jarbas Oliveira, um dos profissionais mais conceituados da terrinha e um ‘fuleiragem’ total. É meio longa, mas garanto que ninguém vai arrepender-se de chegar até o final.

Durante décadas, o grupo de teatro Comédia Cearense encenava, ano após ano, a peça “O Mártir do Gólgota” no Theatro José de Alencar. Já fazia parte da programação oficial da família fortalezense, no mesmo patamar do bacalhau, do vinho Sangue de Boi, da queima de judas e do pão-de-coco da Lisbonense.

Ocorre que, certa vez, no início dos anos 70, alguma desavença - ou desatenção - fez com que as autoridades de cultura da cidade esquecessem de contratar a Comédia. Sem alternativas para manter a tradição de encenar a paixão, os dirigentes da Companhia acertaram apresentações fora da cidade.

A pressão da sociedade foi intensa e tentou-se nova negociação, sem sucesso, já que contratos haviam sido assinados com outras praças. Sem poder deixar a elite local órfã do espetáculo, a saída foi procurar outro grupo que já tivesse a peça ensaiada e em condições de encená-la.

Procura daqui, procura dali, encontraram um grupo de teatro amador lá do Pirambu, mais uma das inúmeras ações sociais desenvolvidas pelo Padre Hélio naquele recanto da periferia de rima fácil e vida dura.

E assim foi feito. Naquele abril, o TJA abriu as portas e a elite local pôde ver, pela primeira vez, um grupo de teatro da periferia na fabulosa casa de espetáculos. Uma das estrelas era um cabeleireiro chamado Seridó, um dos mais entusiasmados artistas do grupo.

Seridó era Pilatos. O espetáculo se encaminhava para o final e, até aquele momento, tudo transcorria normalmente, apesar do suor que corria nas faces das senhoras do high, desmanchando pancakes e ameaçando assanhar as perucas kanekalon.

Pois bem. Numa das cenas mais fortes da peça, Pilatos é chamado a decidir quem, entre Cristo ou Barrabás, receberá o indulto e será solto.

É a gloria de Seridó. O cabeleireiro pobre do Pirambu vê, naquela ocasião, seu momento de glória, que poderia levá-lo a iniciar uma carreira profissional, como integrante do júri do Programa Irapuan Lima ou do Show do Mercantil, de Augusto Borges. Ou ainda, quem sabe, a uma participação nas novelas do Canal 5.

Após a deixa do figurante, Seridó estufa o peito, dá uma rabissaca cenográfica e emposta a voz, soltando a plenos pulmões, sua fala:

- Que queres tu de mim, ó fariseu? - inquere o Barrabás do Pirambu.

Antes que o fariseu responda, lá da torrinha uma voz cavernosa, autêntico moleque, daqueles que têm coragem até de vaiar o sol na Praça do Ferreira, despacha o improviso, para deleite do canelau que tinha arranjado cortesia e o conseqüente terror na fina flor da sociedade:

- O cu, Seridó!”