17 Fev 2008 18:54
Tropa de Elite, filme de José Padilha, ganhou o Urso de Ouro em Berlim - isso vocês já sabem. O que não tenho certeza é se todos prestaram atenção na torcida contra que se fazia. A Folha de S. Paulo, aliás, foi longe. Antes de o prêmio ser anunciado, fez o que pôde para dizer que a produção havia sido mal-recebida pela crítica e pelo público na Alemanha.
Trecho de matéria distribuída pela agência FolhaPress no último dia 11:
“As sessões para a imprensa determinam a repercussão do filme. É a partir delas que são escritas as reportagens e as críticas. As sessões oficiais competitivas têm público composto por convidados. Na manhã de hoje, ao fim da sessão de Tropa de Elite, os jornalistas permaneceram em absoluto silêncio. Para outros filmes na disputa, houve aplausos, ainda que moderados”.
Agora, matéria distribuída no dia 14 (peguei-a no site do jornal O Povo e não tenho como confirmar se o texto foi publicado na íntegra ou com cortes):
“O concorrente brasileiro ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, Tropa de Elite, de José Padilha, exibido ontem, teve uma recepção da crítica dividida entre amores e ódios. Mais ódios do que amores. A revista norte-americana Variety, que recentemente incluiu Padilha numa restrita lista de dez diretores em quem se deve prestar atenção, foi especialmente dura com o filme.
Em resenha assinada por Jay Weissberg, a Variety atribui a Tropa de Elite um ‘estilo Rambo’ e sustenta que ele faz ‘uma monótona celebração da violência gratuita que funciona como um filme de recrutamento de seguidores fascistas’.Weissberg afirma ainda que, segundo o filme, ’só o Bope pode salvar a cidade [do Rio], mas isso requer, antes, a remoção cirúrgica de qualquer coisa que se pareça com um coração’.
Leitores brasileiros da versão online da revista escreveram no site mensagens de protesto e atacaram o autor da crítica.
A Hollywood Reporter publicou entrevista e reportagem sobre o filme, com destaque em sua capa da edição de hoje, mas chamou-o de ‘um filme constrangedor sobre policiais assassinos’.
A crítica afirma que ‘o pressuposto básico do roteiro escrito por Padilha, Rodrigo Pimentel e Bráulio Mantovani é que todo mundo no Rio é corrupto, especialmente as autoridades’.
A revista inglesa Screen, por sua vez, deu ao filme a nota máxima - quatro estrelas, correspondente a ‘excelente’-, numa crítica farta de elogios. ‘A montagem corajosa, a incansável câmera na mão e essa espécie de tom quente e realista conhecido desde Cidade de Deus e Amores Brutos produzem uma mistura que é mais funcional do que inovadora, embora seja eficiente’.
A crítica do jornal francês Le Monde, publicada no blog de cinema do diário, acusa o filme de fazer apologia da tortura: ‘Tropa de Elite’ é feito segundo a receita do neoconservadorismo hollywoodiano - montagem frenética, câmera epiléptica, narrativa que não deixa nenhum espaço à ambivalência. Não é preciso ser hipersensível para ver no filme uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais’, afirma o crítico Thomas Sotinel.
A reação da imprensa alemã foi desigual. O jornal Berliner Zeitung avaliou o filme como ‘excitante e original’, disse que ele apresenta ‘os diversos lados da questão” e o faz com bom ‘equilíbrio entre os aspectos ficcional e documental’”.
Repare: o repórter, que destaca “mais ódios do que amores” nas críticas ao Tropa de Elite, pinçou trechos de resenhas da Variety, Hollywood Reporter e Le Monde para desancar o filme. E longos trechos, diga-se. Para o lado dos “amores”, menciona só a Screen, britânica. Para falar “reação desigual” da imprensa da Alemanha, usou apenas uma referência, o jornal Berliner Zeitung.
Sei não, mas acho que ainda tem gente curtindo uma certa ressaca com o Urso do Tropa.
Uma resposta for "Foi para o saco"
Não sou uma autoridade no mundo do cinema, mas um fã dessa arte, daqueles que tenta ver tudo que pode na telona.
Dito isso, considero o Tropa de Elite a grande realização do cinema brasileiro. Um filme verdadeiro, desafiador, intrigante, ao qual não se pode ficar imune. Toca nas feridas, aborda os temas abertamente, aponta algumas das mazelas do sistema, das instituições e chama atenção para a responsabilidade da classe média, que insiste em se posicionar como vítima de tudo. É, sobretudo, um filmaço. Coincidentemente, nos papos com amigos, sempre o comparei ao Cidade de Deus e Amores Brutos, também citados por uma das críticas apontadas na matéria da Folha.
A perseguição - coisa que a Folha faz muito bem - ao filme mostra o incômodo da classe média com a exposição de temas que ela prefere deixar debaixo do tapete. Fingir que não existe, já que pode pagar esse preço ao se fechar nos seu “apartamentinho na Zona Sul” (sic) - e cada cidade tem a sua.
O Tropa perdeu a indicação brasileira para disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Assim como Cidade de Deus, foi preterido por um filmeco água-com-açúcar. Parece que nossos cineastas e críticos (nunca confie na opinião destes últimos), que forma a comissão julgadora, são piores que os famosos “velhinhos da Fifa” que elegeram Oliver Kahn, goleiro da Alemanha, o melhor jogador da Copa de 2002, com Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo dando show.
Sabe-se que as decisões da Fifa têm elo com os compromissos econômicos e políticos da entidade - que tem mais associados do que a ONU. Falta saber o que tira do topo, no Brasil, filmes como o Cidade e o Tropa.
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